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Homeopatia? Não obrigado.

Amiga do ambiente e dos animais. Engole comprimidos de homeopatia feitos de fígado e coração de pato.

Comprimidos de homeopatia “oscillococcinum” são feitos à base de fígado e coração de pato.

Já há semanas que tenho andado em torno deste tema em conversas com amigos, e hoje decidi que não poderia deixar passar nem mais um dia – só é pena que não esteja a escrever este artigo no inverno, que é quando isto poderia ter mais interesse, mas mais vale tarde do que nunca.

Ora bem, já não me recordo onde ouvi falar disto, mas alguém me tinha alertado aqui há uns tempos que os ‘famosos’ comprimidos de homeopatia da marca “oscillococcinum” são produzidos à base de extratos de fígados e corações de pato selvagem.

 

Embalagem de 30 doses de Oscillococcinum

Embalagem de 30 pílulas à venda em farmácias

Oscillo-quê…?

Sim, parece um palavrão ou uma palavra em língua estrangeira. Curiosamente, a própria promotora do produto em Portugal também se deu conta dessa ‘falha’ e, para conseguir melhor penetrar no nosso mercado com semelhante nome para um “remédio” tão difícil de memorizar e pedir ao balcão das lojas, resolveu atacar o mal pela raiz.

De forma a tentar conseguir memorizar a marca, investiram forte e feio em campanhas de publicidade, com destaque para uma presença diária na Rádio Comercial, onde se ouviam as vozes da Vanda Miranda e do Vasco Palmeirim num tom ligeiro e aparentemente amigável, com um slogan sonante “oscilou e a gripe passou.

Felizmente, neste país temos gente com neurónios, e a gracinha acabou por valer à equipa das manhãs da Rádio Comercial, no ano de 2013, um ‘vergonhoso’ prémio Unicórnio Voador.

 

“Sintomas de gripe” ou “estados gripais”?

Então parece que é mais ou menos assim: supostamente, os comprimidos serão preparados para auxiliar quem sinta que passa por “sintomas de gripe” ou “estados gripais.” Portanto, e para todos os efeitos, não é para seres humanos que tenha efetivamente sido infetados com o vírus da gripe, compreendido?

Ou será que é?

Se depender de mim, claro que não.

Esses supostos “estados gripais” ou “sintomas de gripe” parecem-me ser descrições de sintomas bastante genéricos, em que, numa determinada ocasião, qualquer pessoa acaba por se queixar. Sei lá, dores de cabeça, dores musculares, ranho e tosse em abundância, mal estar geral, dores de abdómen, sei lá…

Quem não passa por isso de vez em quando? Aliás, provavelmente, e agora que estamos naquela altura do ano em que os pólenes “andam à solta”, suponho que as pessoas mais sensíveis acabam por sofrer em abundância com sintomas que também possam ser considerados parecidos com os propostos, certo?

 

Ingredientes das pílulas homeopáticas "oscillococcinum"

Anas barbensis – em latim, pato selvagem (clique para ampliar)

Ingrediente ativo?

A empresa “Boiron” propõe com os seus comprimidos “oscillococcinum” (e reparem que me recuso a chamar aquilo de ‘medicamento’), através da literatura inclusa em cada caixa de pílulas, que o “ingrediente ativo” da coisa é nada mais, nada menos que extrato de coração e fígado de pato selvagem – descrito na embalagem em latim como “Anas barbariae hepatis et cordis extractum.

Bem, é designado como “ingrediente ativo” mas devo referir que os comprimidos são produzidos através da técnica designada de “homeopatia” pelo que, muito provavelmente, acho que até isso deveria ser revisto, porque efetivamente, a existir qualquer tipo de “ingrediente” na coisa deveria ser considerado o excipiente, que neste caso, é 1 grama de açúcar por comprimido.

 

Mas a gripe não é uma infeção?

Nem mais. A gripe é uma doença provocada pela invasão do vírus Influenza no corpo dos animais. Como também somos animais, estamos sujeitos à infeção e as únicas formas comprovadamente capazes de evitar infeções de vírus é não estar exposto aos mesmos, ou tomar vacinas preparadas para o efeito.

Não deve ser muito difícil concluir que se essas são as únicas formas de evitar a infeção, então, os extratos de fígados e corações de pato selvagem (ou, vá lá, apenas açúcar) não sejam os ingredientes indicados para combater infeções virais, certo?

Essa é a minha conclusão, e, se não estou em erro, é também a conclusão de toda a comunidade científica do planeta Terra.

 

Vírus da gripe "Influenza"

Vírus da gripe (vírus “Influenza”)

Mas afinal, como se prepara um comprimido “homeopático”?

Para quem não sabe, a produção de comprimidos (ou infusões) através da “técnica” da homeopatia, exige que o ingrediente base seja diluído primeiro em 10 partes de água, sendo depois extraído uma parte dessa diluição inicial para logo de seguida dar seguimento a nova diluição, embora agora já numa proporção menor, ou seja, de 100 para 1; depois, numa terceira diluição de 1.000 para 1, e assim por diante.

Aparentemente, parece que não existe nenhuma regra que indique em que proporção a diluição deverá terminar, sendo que, pelo que consegui concluir através da contrainformação disponível na internet e, parece que ao chegar à proporção de 100.000 para 1, a coisa poderá ser dada como estando pronta.

Neste caso particular do preparado “oscillococcinou”, presumo que a receita possa resumir-se a cerca de 100g de extrato de fígados e corações de pato selvagem, muito bem migados e diluídos em proporção de 1 litro de água, para logo de seguida proceder a novas diluições em proporções de 100 para 1, depois 1.000 para 1, 10.000 para 1,  100.000 para 1, etc.

Pelo que é indicado na caixa destas pílulas, a fórmula proposta indicada pelo ‘fabricante’ dará numa concentração de fígado e coração de pato selvagem desta magnitude:

0,0000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000
000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000
000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000
000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000
0000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000001

Sim, são 400 zeros depois da vírgula seguidos de 1. (Espero não ter errado no cálculo…)

De qualquer das maneiras, e em termos comparativos, tome-se o arsénio (um dos componentes mais tóxicos e mortais que se conhece). Sabemos que uma dose tão pequena como 200mg de arsénio basta para matar um ser humano, mas a verdade é que essa substância tão venenosa e tóxica se encontra na proporção de 0,000007% no corpo humano, tornando-o, nessa tão ínfima concentração, completamente inofensivo.

Pergunto eu: Como poderá então aquela “concentração” de fígado e coração de pato selvagem exercer algum tipo de efeito sobre o vírus da gripe no corpo humano…? Não pode.

 

E já agora, como é que uma dose tão pequena de fígado e coração de pato selvagem diluídos, consegue ser contabilizada?

Bem, eu não sei, mas presumo que, muito provavelmente, o “sumo” resultante dos fígados e corações migados e consequentemente diluídos (ou seja, uma água muito mas mesmo muito pouco ‘suja’) passe por um processo de acrescentação de açúcar para conseguir preencher o volume correspondente a um comprimido de 1g e depois permitir a embalagem no ‘blíster‘ da caixa para posterior comercialização retalhista em casas da especialidade, vulgo “ervanárias”, mas, infelizmente, também em bastantes farmácias. (sim, pasme-se!)

 

Isto dá pano para mangas!

Dá sim. Mas dá ainda muito mais lucro.

Pessoalmente, começo por achar mesmo muito questionável, o facto das farmácias, que ainda tomo como locais de honra e prática da moderna ciência e não de disseminação de superstições, crendices ou mezinhas – ou seja, a ignorância pura – se deixem levar pelo apelo do lucro fácil que advém da venda destas pílulas de açúcar.

Não sei qual será a proporção da margem de lucro que vai para os retalhistas proprietários das farmácias, mas suponho que seja superior a 40%, e não custa muito concluir que, 40% de 28,00 Euros resulta em 11,20 Euros de lucro por cada caixinha vendida aos incautos pacientes com supostos “sintomas gripais.”

 

Cada comprimido de açúcar fica em quase um Euro!

Claro. Se pegarmos no preço de uma caixa de 30 comprimidos (anunciado em torno dos 28,00 Euros), dá uma média de 93 cêntimos de Euro por cada comprimido engolido. E depois de tantas diluições, alguém acredita que o componente único da coisa não seja pura e simplesmente… Açúcar?

 

Então e o efeito placebo?

O efeito placebo existe, está mais do que comprovado, mas não é um método de combate a infeções virais (e suponho que muito menos bacterianas).

Agora, suponho que mesmo que aquilo pudesse ser considerado como um placebo de venda autorizada, acho que a metodologia praticada teria que seguir outras normas. Não é o doente que decide quando ou como deverá tomar um placebo na tentativa de obter resultados observáveis perante um quadro clínico negativo. Suponho que semelhante metodologia terá que ser sempre e apenas sugerida pelo respetivo médico, certo?

Aliás, se isto se tratasse apenas de um placebo cuja comercialização fosse autorizada como tal, então, o mínimo que poderia fazer-se, seria alterar o nome da coisa para…

Adivinharam: ‘placebo’.

 

Mas então, e ninguém faz nada?

Não sei. Quanto a mim, já me daria por contente que fosse proibido utilizar a palavra “medicamento” para designar estas pílulas, mas suponho que muito mais pudesse ser feito no que respeita à questão do combate à gripe ou no auxílio da educação medicinal e científica aos jovens em idade escolar ou da população em geral.

Da minha parte, resolvi publicar este artigo. É a minha opinião pessoal, vale o que vale, mas sinceramente, espero que as entidades competentes façam algo mais para auxiliar a população de forma a evitar a todo o custo a dúvida e o engano. Será o mínimo.

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